sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Revolução Científica e as patentes

A patente em seu sentido moderno, como observamos de forma embrionária na “Parte” veneziana e no Estatuto dos Monopólios, com objetivo de estímulo às inovações não se trata de um produto da era medieval, mas da era moderna e se encontra nas origens da revolução científica dos séculos XVI e XVII. O que marca a revolução científica é um olhar para o novo, que nos reserva um mundo melhor. Na visão pré científica, o olhar é para o passado, para o éden perdido. Vivemos um mundo de queda de uma situação a qual se busca resgatar. Assim diz o Eclesiastes 1:9-10: "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós". No Mênon (82b-86b), Platão sustenta que conhecer é recordar, é superar a queda, é libertar-se do mundo e transcender. A alma seria imortal e teria contemplado no Hades as verdadeiras coisas permanecendo dentro do homem de uma forma velada. A verdade há que se buscada no passado, na descoberta de fatos antes ocultos.[1] Joel Mokyr observa esta característica que marca a transição descontínua do conhecimento antigo com a ciência moderna: “a vitória da Ilustração não foi pelo fato de uma acumulação contínua de conhecimento mas o triunfo de um conhecimento público e aberto sobre um conhecimento secreto, arcano, a vitória da filosofia mecânica (conhecimento verificado de regularidades da natureza) sobre uma filosofia oculta que tratava do místico e de entidades não observáveis”.[2]

Ao contrário, tanto a Revolução Científica como o moderno sistema de patentes buscam o novo. Segundo Paolo Rossi com a Revolução Científica: “o saber mudou de função: não é nem contemplação nem tentativa de decifrar as estruturas íntimas do real. Francis Bacon concebe a ciência como venatio (caça), como caça, como tentativa de penetrar em território desconhecido com vistas a fundar o regnun hominis (reino do homem)”.[3] Na filosofia mecanicista o universo é visto como uma máquina universal, que funciona como modelo explicativo da natureza. Desta form,a os modelos e máquinas construídos pleo homem são vistos como um modelo privilegiado para a compreensão da natureza. Paolo Rossi mostra que a filosofia dos aristotélicos, ao contrário dos modernos, não é voltada para a inovação mas para um conhecimento definitivo que não suscita ou promove novos desenvolvimentos, onde na há espaço para o inventor: “o erro dos aristotélicos é o de fixar e tornar eternos os problemas que Aristóteles suscitou”. [4]

Não será por acaso que uma das patentes sob a Lei Veneziana tenham sido concedidas em 1594, para um método para elevação da água, a ninguém menos que Galileu Galilei considerado precursor da revolução científica [5]. Mario Biagioli destaca em Galileu a postura do cientista que busca o mérito e o reconhecimento de suas descobertas como forma de alcançar maior prestígio na Corte, e de proteger sua propriedade intelectual. Nesta perspectiva Biagioli observa que ao revelar suas descobertas astronômicas em “O mensageiro das estrelas - Sidereus Nuncius” entre as quais as crateras da Lua e as luas de Júpiter, Galileu tem o cuidado de não revelar detalhes técnicos de seu telescópio, com poder de ampliação de 20 vezes, muito superior aos modelos holandeses difundidos da Europa. Galileu distribuiu modelos de seu telescópio para príncipes ao mesmo tempo que recusou distribuí-lo a potenciais competidores como Kepler e Clavius. Embora o Sidereus Nuncius publicado em 1610 lhe garanta o crédito de suas descobertas sua preocupação era a de garantir para si todas as possíveis descobertas futuras com o seu telescópio. [6]

Outros cientistas como Huygens, Blaise Pascal, Fatio de Duillier (colaborador de Newton e membro da Royal Society), Thomas Tompion[7] (fabricante de relógios e colaborador de Robert Hook), entre tantos outros cientistas do século XVII e XVIII, também solicitaram patentes, assim como a Royal Society que solicitou uma patente em 1644 para um instrumento de medição que rendeu receitas para a Instituição. [8] La pascaline (a pascalina) foi a primeira calculadora mecânica do mundo, planejada por Blaise Pascal em 1642 e por ele patenteada. A máquina era formada por discos  raiados com os algarismos 0 a 9 cada uma. Para somar ou subtrair números o operador usava uma agulha para dicsar (tal como um telefone de disco) e então discava o número seguinte.[9] Huygens envolveu-se em um acirrada disputa com Hooke com relação ao crédito junto à Royal Society por uma de sua invenções patenteadas na Holanda em 1675 relacionada a um relógio baseado em uma mola em forma espiral.[10]


La Pascaline [11]





[1] CRUZ, Murillo. A norma do novo: fundamentos do sistema de patentes na modernidade: filosogia, história e semiótica. Rio de Janeiro, 1996. Tese Doutorado, Coppe/UFRJ, Engenharia de Produção, p. 34
[2] MOKYR, Joel. The European enlightment and the origin of modern economic growth. In: HORN, Jeff; ROSENBAND, Leonard; SMITH, Merritt Roe. Reconceptualizing the Industrial Revolution, London:MT Press, 2010, p.77
[3] ROSSI, Paolo. A ciência e a filosofia dos modernos, São Paulo, UNESP,1992, p.80
[4] ROSSI,op.cit.p.134, 146, 148
[5] DOMINGUES. op. cit., p. 7.
[6] BIAGIOLI, Mario. Replication or monopoly ? the economies of invention and Discovery in Galileo’s observations of 1610. Scence in Context, v.13, n.3-4, 2000, p.547-590
[7] http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Tompion
[8] BIAGIOLI, Mario. From print to patents: living on instruments in early modern Europe. Hist. Sci., xliv, 2006, p. 143 http://innovation.ucdavis.edu/people/publications/Biagioli%202006%20From%20Print%20to%20Patents.pdf
[9] ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital, São Paulo: Cia das Letras, 2014, p. 31
[10] BIAGIOLI,op.cit.p.151; JOHNS, Adrian. Piracy: the intellectual property wars from Gutenberg to Gates. The University Chicago Press, 2009, p.72
[11] http://pt.wikipedia.org/wiki/La_pascaline

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