segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os luditas e sua luta contra inovação

No início da Revolução Industrial, alguns trabalhadores revoltaram-se contra as máquinas introduzidas no processo industrial provocando desemprego. Para Fernand Braudel[1] diante da nova divisão do trabalho e aumento da pobreza nunca o descontentamento social foi tão profundo quanto entre 1815 e 1845. Um movimento liderado por Martin Ludd (outros autores se referem a Ned Ludd[2]) levou a destruição de máquinas como forma de preservar a dignidade dos trabalhadores: “De pé ficaremos todos. E com firmeza juramos. Quebrar tesouras e válvulas. E pôr fogo às fábricas daninhas.” [3]

O movimento terminou de maneira trágica, com enforcamentos em massa em York na Inglaterra. Em 1812 um exército de doze mil homens reprimiu o movimento tendo ao final cinco mortos. As ideias ludistas simbolizam o conflito que se perpetuou entre automação e emprego. Willian Rosen destaca que para os luditas as ideias não podiam ser objeto de propriedade mas apenas a habilidade dos artesãos: “property equals labor plus skill[4]. Protestos contra as máquinas foram observados no início do século XIX em cidades como Nottingham, York, Leicestershire, Derbyshire, Lancashire e Middleton, milhares de fiandeiras de Hargreaves, máquinas de costuras de Thimmonier e a segadeira de Patrick Bell foram destruídas.[5] Máquinas de Cartwright também foram depredadas em 1792 em fábricas em Manchester. [6] As máquinas de cardar de Arkwright provocaram uma petição ao Parlamento, apresentada por 50 mil trabalhadores que até então viviam de cardar a lã. [7] Em outubro de 1779 com o comércio em depressão, uma multidão de 4 mil trabalhadores destruíram em Birkacre todos as máquinas de uma fábrica de Arkwright.[8] Em 1759 Everet, inventor de uma máquina de tosquiar movida á água, teve suas máquinas queimadas pelas 100 mil pessoas que ficaram sem seu trabalho. Em 1830-1833 as revoltas Swing de trabalhadores rurais ingleses contra o emprego de maquinaria e aumento de salários, foram incendiados celeiros e tornos mecânicos. [9]

Muitos analistas consideraram o processo de automação benéfico, pois se de um lado elimina empregos, por outro cria toda uma nova demanda de profissionais, além de elevar a produtividade do trabalho e por consequência o aumento da produção, o que indiretamente implica no aumento da demanda, tornando o desemprego de trabalhadores um efeito temporário [10]. Mesmo Karl Marx reconhece que: “com a expansão do sistema fabril num ramo industrial, aumenta inicialmente a produção em outros ramos que lhe fornecem seus meios de produção. Até que ponto isso provocará o crescimento da massa de trabalhadores ocupados depende, dada a duração da jornada de trabalho e a intensidade do trabalho, da composição dos capitais aplicados, isto é, da proporção entre seus componentes constante e variável”.[11] John Wyatt em 1736 em defesa de sua patente alegou que a mecanização pouparia a necessidade de trabalho de jovens mulheres que poderiam encontrar trabalho na agricultura, ademais novos empregos seriam criados reabsorvendo a mão de obra inicialmente deslocada das fábricas. [12]Willian Rosen destaca que a derrota dos ludistas foi resultado do impacto econômico alcançado pelas patentes de inventores como Lombe, Kay, Hargreaves e Arkwright, que trouxe benefício a toda a sociedade, diante dos grandes ganhos de produtividade proporcionados pelas invenções: “um grande artesão pode tornar uma família próspera; um grande inventor pode enriquecer uma nação inteira”.[13]


Ludistas destruindo máquina de tear de Cartwright em 1812 [14]




[1] BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII o tempo do mundo, São Paulo;Martins Fontes, 2009, p.553, 572
[2] ROSEN, William. The most powerful idea in the world: a story of steam, industry and invention. Randon House, 2010, p. 4201/6539 (kindle edition)
[3] HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem, Rio de Janeiro: Ed. Zahar Editores, 1976, p. 198.
[4] BINFIELD, Kevin. Writings of the luddites , Baltimore and London: Johns Hopkins Press, 2004
[5] CAMP, Sprague. A história secreta e curiosa das grandes invenções.Rio de Janeiro:Lidador, 1964, p. 16, 133ROSEN, William. The most powerful idea in the world: a story of steam, industry and invention. Randon House, 2010, p. 4190/6539 (kindle edition)
[6] ROSEN, William. The most powerful idea in the world: a story of steam, industry and invention. Randon House, 2010, p. 4128/6539 (kindle edition); MacLEOD, Christine. Heroes of invention. technology, liberalism and british identity 1750-1914, Cambridge University Press, 2007, p.42
[7] MARX, Karl. O capital, livro I: o processo de produção do capital,São Paulo:Boitempo, 2013, p.500
[8] MacLEOD, Christine. Heroes of invention. technology, liberalism and british identity 1750-1914, Cambridge University Press, 2007, p.41
[9] MARX, Karl. O capital, livro I: o processo de produção do capital,São Paulo:Boitempo, 2013, p.748
[10] TIGRE, Paulo Bastos. Gestão da Inovação: a economia da inovação no Brasil, Rio de Janeiro: Elsevier, 2006, p. 14.
[11] MARX, Karl. O capital, livro I: o processo de produção do capital,São Paulo:Boitempo, 2013, p.515
[12] MacLEOD, Christine. Inventing the industrial revolution: the english patent system, 1660-1800, Cambridge:Cambridge University Press, 1988 p.165
[13] ROSEN, William. The most powerful idea in the world: a story of steam, industry and invention. Randon House, 2010, p. 4261/6539 (kindle edition)
[14] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ludismo

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