sexta-feira, 13 de março de 2026

Mulheres na PI segundo relatório da WIPO

https://www.wipo.int/edocs/pubdocs/en/wipo-pub-ds-gender-2023-en-the-gender-gap-in-global-patenting-an-international-comparison-over-two-decades.pdf


O relatório analisa a participação das mulheres na atividade inventiva mundial, usando dados de pedidos internacionais de patente (PCT) entre 1999 e 2020. O objetivo é medir o “gender gap” (diferença de gênero) na inovação e identificar como ele varia por região, país, setor e área tecnológica.


2. Principais resultados globais

Participação feminina

  • Apenas 23% das patentes internacionais incluem ao menos uma mulher inventora.

  • Mulheres representam 13% de todos os inventores listados.

  • A contribuição feminina equivale a cerca de 10% das patentes globais.

Tendência ao longo do tempo

A participação feminina cresceu gradualmente:

  • ~20% das patentes tinham inventoras em 2000

  • ~30% em 2020

Mesmo assim, o avanço é lento.

Previsão de igualdade

Mantendo o ritmo atual:

  • Paridade de gênero (50% inventoras) só deve ocorrer por volta de 2061.


3. Diferenças regionais

A participação feminina varia por região.

Participação aproximada de mulheres inventoras:

  • América Latina e Caribe: ~21% (mais alta)

  • Ásia: ~17%

  • América do Norte: ~15%

  • Europa: ~14%

  • África e Oceania: ~13%

A Ásia apresentou o crescimento mais rápido nas últimas décadas.


4. Diferenças por área tecnológica

As mulheres estão concentradas em algumas áreas científicas.

Maior participação feminina

  • Biotecnologia

  • Química de alimentos

  • Farmacêutica

Nessas áreas a participação pode chegar a cerca de 30%.

Menor participação

  • Engenharia mecânica

  • Máquinas e transporte

  • Tecnologias industriais tradicionais

Em alguns desses campos, mulheres representam menos de 10% dos inventores.


5. Academia vs. setor privado

O estudo mostra uma diferença importante:

  • Academia: ~21% de inventoras

  • Empresas: ~14% de inventoras

Ou seja, universidades e institutos de pesquisa são mais inclusivos que o setor industrial.

No entanto, a maioria das patentes ainda vem de empresas, o que reduz o impacto dessa maior participação feminina na academia.


6. Composição das equipes de inventores

Outro resultado relevante:

  • Equipes somente de mulheres são raras (cerca de 4% das patentes).

  • A maioria das patentes vem de:

    • equipes só de homens, ou

    • equipes majoritariamente masculinas.

As mulheres aparecem com mais frequência:

  • em equipes dominadas por homens, ou

  • trabalhando sozinhas, mais do que em equipes majoritariamente femininas.


7. Países com maior participação feminina

Entre os grandes países depositantes de patentes, destacam-se:

  • Espanha

  • Colômbia

  • Brasil

Nesses países, cerca de 22–26% dos inventores são mulheresNo ranking de empresas mais inclusivas em termos de inventoras, a empresa brasileira Natura Cosméticos aparece como a mais inclusiva do mundo quando se considera um subconjunto de empresas analisadas.

Os números citados são impressionantes:

  • 84,1% dos inventores são mulheres

  • 97,9% das patentes têm pelo menos uma inventora

  • 84,1% das patentes são atribuídas a mulheres

Ou seja, na amostra analisada, a Natura aparece até mais inclusiva que a empresa francesa L'Oréal, que é normalmente considerada líder em cosméticos.

⚠️ Porém o relatório faz uma ressalva importante:
algumas empresas dessa lista têm menos de 100 patentes no período, o que pode tornar as estatísticas menos robustas. O relatório explica que países com forte participação acadêmica nas patentes tendem a ter mais mulheres inventoras.


E na América Latina:


universidades e institutos públicos têm participação maior no sistema de patentes.


Isso ajuda a explicar o caso brasileiro.O relatório destaca que a UNICAMP aparece no topo das instituições acadêmicas mais inclusivas do mundo.


Dados da universidade:


47,3% dos inventores são mulheres


81,6% das patentes incluem ao menos uma mulher inventora


47,1% das patentes são produzidas por mulheres


Ou seja, quase paridade de gênero nas patentes da universidade.A WIPO observa que América Latina e Caribe têm uma participação feminina relativamente alta, o que pode ajudar a entender fatores que promovem maior inclusão em inovação.


Esses fatores podem incluir:


maior papel das universidades


presença de áreas como química, biotecnologia e farmacêutica


equipes menores de pesquisa



8. Conclusão

O relatório conclui que:

  • A participação feminina na inovação está crescendo, mas permanece significativamente menor que a masculina.

  • As diferenças dependem de região, área tecnológica e setor econômico.

  • Políticas públicas e institucionais são necessárias para acelerar a inclusão de mulheres na atividade inventiva.

Sem mudanças estruturais, a igualdade de gênero em patentes só deve ocorrer em meados do século XXI.


https://www.scielo.br/j/sdeb/a/3wJM8jytstPSzLqgGRBGLMB/?lang=pt

A presença de mulheres na atividade de 

patenteamento no Brasil (1996-2017) 

The presence of women in patenting activities in Brazil (1996-2017)

Nara Azevedo1, Antônio Carlos Souza de Abrantes

O artigo analisa a participação das mulheres no sistema de patentes brasileiro entre 1996 e 2017, utilizando dados de pedidos de patente e concessões publicados na Revista da Propriedade Industrial (RPI) do INPI. O objetivo é compreender melhor o papel das mulheres na produção de conhecimento tecnológico no Brasil. O estudo mostra que homens predominam amplamente entre os inventores.


Patentes apenas com mulheres representam cerca de 2,8% das patentes concedidas no período analisado.


Nos pedidos de patente, esse valor chega a 4,2%.


Ou seja, existe uma forte desigualdade de gênero no patenteamento.

Apesar da desigualdade, houve crescimento gradual da presença feminina:


A participação de mulheres entre inventores no Brasil passou de 11% (1996-2000) para 19% (2011-2015).


Esse aumento acompanha a tendência internacional de maior inclusão feminina no sistema de patentes.

O crescimento ocorre principalmente em equipes de inventores com homens e mulheres.


As patentes com equipes mistas cresceram mais do que aquelas formadas apenas por mulheres.


Isso indica que a participação feminina ocorre frequentemente em colaboração com equipes maiores.

A maior presença feminina ocorre em áreas como:

  • química

  • biotecnologia

  • produtos farmacêuticos

  • engenharia química

No início dos anos 2000, essas instituições concentravam cerca de 30% dos investimentos públicos em P&D, e passaram a integrar a lista dos 50 maiores depositantes de patentes no País com prioridade brasileira29-31. Entre 2015 e 2017, as universidades federais e estaduais ocuparam as dez primeiras posições no ranking dos principais depositantes residentes de patentes de invenção32-34. Uma das razões cogitadas para esse desempenho foi a mudança no arcabouço jurídico dos direitos de propriedade intelectual, decorrentes da Lei de Propriedade Industrial (nº 9.279, 14 de maio de 1996) e da chamada Lei de Inovação (nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004), além obrigatoriedade de instalação de Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) nas instituições científicas para gerir a política de inovação; em particular, a proteção jurídica dos resultados da pesquisa e sua transferência para o setor privado. Um aspecto fundamental foi a autorização para a concessão de parte dos ganhos econômicos da exploração comercial de patentes para os inventores pertencentes às universidades e institutos públicos35
Os reflexos da nova institucionalidade forjada por essas ações públicas foram percebidos na análise apresentada a seguir a respeito do quantitativo de patentes concedidas a residentes e de pedidos de depósitos de residentes pelo Inpi entre 1996 e 2017. Embora reduzida, a presença de mulheres nesses 21 anos é perceptível no sistema de patentes brasileiro, notadamente a partir da última década do período. A institucionalização dos novos polos de inovação e de geração de patentes das IES e dos institutos públicos de pesquisa contribuiu diretamente para tanto. Essas instituições abrigaram a maioria das mulheres inventoras e concentraram um volume significativo de patentes por elas produzidas, notadamente na área química, reconhecida como uma área de especialização e profissionalização femininas. Nessa área, enquadram-se os inventos das indústrias farmacêuticas, biotecnológicas, e de química fina orgânica

Nenhum comentário:

Postar um comentário