quinta-feira, 18 de junho de 2015

Patentes e start ups em software

Diego Useche[1] encontra uma correlação robusta entre a quantidade de pedidos de patentes de empresas e seu desempenho na IPO. Cada pedido de patente adicional antes do lançamento da IPO aumenta em 0,507% o capital captado na IPO se tomarmos em consideração os Estados Unidos e 1,13% para a Europa. Os resultados sugerem que um ambiente menos “amigável” para o depositante, como é o cenário europeu com uma política de concessão de patentes mais rigorosa do que nos Estadso Unidos e onde não existe benefícios para os titulares como o período de graça e a possibilidade de emendas nos pedidos através de continuations in part. Esta política mais rigorosa aumenta a credibilidade das patentes como sinais para o mercado e assim maior seu valor é percebido pelos investidores na IPO. A literatura tem apontado diversos fatores que influenciam o capital captado nas IPOs como o papel do capital de risco, alianças estratégicas das empresas, experiência tecnológica, status da empresa com a presença de laureados no Prêmio Nobel, o nível de internacionalização da empresa entre outros sinais que contribuem para aumentar a confiança dos investidores. As patentes na área de software, submetidas a diversas críticas, tem levantado dúvida sobre qual seu efeito nas IPOs, especialmente quase se leva em conta o curto ciclo de vida de tais tecnologias. 

Diego Useche em seu estudo analisa os dados de 476 empresas de software sendo 234 dos Estados Unidos e 242 da Europa, que lançaram IPOs entre 2000 e 2009 em bolsas como Nasdaq (US), AIM (UK), Euronet (FR), LSEx-OFEX (UK), NYSE (US) e Frankffurt (DE), levando em conta as patentes depositadas pelo menos quatro anos antes do lançamento da IPO. Os resultados mostram que empresas inovadoras com mais depósitos de patentes conseguem significativamente mais capital nas IPOs. Os dados mostram que 66% das empresas de software dos Estados Unidos e 23% das européias depositaram ao menos uma patente no período considerado. O maior número de patentes das empresas norte americanas sugere que o comportamento da política de patentes é maior para estas empresas, no entanto o impacto econômico maior é proporcionado entre as empresas européias. Não há, contudo, uma correlação deste dado com um menor índice de qualidade de patentes seja medido em termos de citações recebidas pela patente ou por um maior número de pedidos na família. Os resultados mostram que os investidores não são influenciados com fatores como qualidade das patentes e nem como aferir este parâmetro de forma objetiva. As médias das IPOs nos Estados Unidos foi de 158 milhões de euros e de 69 milhões de euros na Europa, o que sugere que cada nova patente representa um acréscimo de 800 mil euros e 774 mil euros respectivamente. As empresas europeias, portanto, conseguem quase o dobro dos resultados que as empresas norte americanas com o uso de suas patentes.

Um estudo de Ronald Mann[2] realizado em 2007 numa amostra de 877 empresas de software financiadas por capital de risco entre 1997 e 1999 conclui que apenas 9% das empresas obtiveram uma patente antes de seu primeiro financiamento, muito embora outras possam ter depositado uma patente que à época ainda não havia sido concedida. Até 2005 cerca de 24% das empresas possuíam ao menos uma patente concedida. Segundo Ian Maxwell[3] estes dados coincidem com o índice de 30% das empresas de software da lista das 500 maiores empresas do setor nos Estados Unidos, igualmente possuem ao menos uma patente. Segundo Ronald Mann empresas start ups com patentes receberam 73% mais financiamento do que aquelas sem patentes. Empresas sem patentes tem duas vezes mais chances de quebrar comparadas com as empresas com patentes. Cerca de 13% das empresas com patente no estudo fizeram oferta pública de ações (IPO) comparada com apenas 3% das empresas sem patentes, ou seja, as empresas com patentes tem quatro vezes mais chances de fazerem uma IPO. Ian Maxwell conclui que os dados mostram que empresas com patentes representam uma melhor oportunidade de investimentos.
Enquanto nos Estados Unidos patentes são apontadas como um importante instrumento para atração de capital de risco no Brasil esta forma de financiamento ainda é limitada. No Brasil, a formação de investimentos de capital de risco iniciou-se com suporte do BNDESPAR após a estabilização monetária, com forte expansão no período 1999-2001, com o boom da internet. O pico ocorreu em 2000, quando 13 organizações entraram no mercado[4], movimentando algo em torno de 1 bilhão de dólares, seguido de uma retração em função do estouro da “bolha da internet[5] . O BNDES conta com o Programa BNDES para o Desenvolvimento da Indústria Nacional de Software e Serviços de Tecnologia da Informação - BNDES Prosoft.[6] A Senior Solutions que atua no setor de finanças, por exemplo, possui entre os seus sócios o BNDES e o Fundo Stratus de capital de risco. Embora desenvolvido seguindo os moldes do mercado norte-americano notam-se diferenças marcantes como por exemplo, quanto à cultura empresarial, o pequeno desenvolvimento do mercado de ações e quase ausência de IPOs (Initial Public Offerings) considerados elementos fundamentais para um mercado de capitais de risco eficiente[7].
Nos últimos anos a Totvus, Positivo Informática, Senior Solution e Linx abriram o capital na Bolsa nos últimos anos. Outras empresas de tecnologia da informação se preparam para seguir o mesmo caminho em 2014, entre as quais a Quality Software (terceirização de infraestrutura em TI), BRQ IT Services, Altus, BSI Tecnologia e Cast Informática. A empresas tem a possibilidade de captar recursos por meio de fusões ou aportes de capital. [8] A BNDESPar tem atualmente investimentos em 30 empresas de TI entre as quais a BRQ IT Services e a Quality Software.
O VentureForum organizado pela FINEP em diversas edições foi responsável pelo financiamento de diversas empresas no setor de software como a AQX (instrumentos de digitalização de sinais elétricos), Delsoft (gestão integrada), Edusoft (gestão escolar), Massa (sistema de processamento de sinais por exemplo em ferrovias), Mediasoft (sistemas de realidade virtual), Pixeon (gerenciamento de imagens médicas), Totall.com (sistemas ERPs), Wiaxis (sistemas financeiros em PDAs)[9]. A 12ª edição do Seed Venture Forum foi realizada em maio de 2012 em Porto Alegre com a participação de empresas na área de TI como Aquiris (videogames), Cliever (impressoras 3D), Fluid Objects (aplicativos para tablets), Interage (computação em nuvem), Neteye (software de segurança), Superplayer (download de música digital), Smartcom (pagamento eletrônico), Trevisan Tecnologia (ERPs). Segundo Antonio Botelho no período de 200 a 2002 um total de 33 empresas de software receberam investimentos de capital de risco através da FINEP[10].

Com o objetivo de capitalizar empresas brasileiras inovadoras via fundos de Venture Capital, a Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital – (ABVCAP) realiza entre junho e agosto de 2012, em parceria com a Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (SOFTEX), uma série de eventos com a presença de especialistas da área. A iniciativa percorrerá as cidades de São Carlos (junho), Porto Alegre (julho), Florianópolis (julho), Belo Horizonte (agosto) e Fortaleza (agosto).[11] O JáComparou, empresa brasileira pioneira na comparação de serviços de Telecomunicações, anunciou que recebeu em maio de 2012 um investimento minoritário de dois investidores anjo da Gávea Angels do Rio de Janeiro, mais antigo (2002) e principal grupo de investidores anjo do país, e da empresa de participações Argotec, de São Paulo.[12]

A Revista Exame em 2012 fez um levantamento de startup promissoras no Brasil destacando na área de software o site Meu Carrinho de André Nazareth, as empresas Lemon de Bel Pesce, a Viajanet de Bob Rossato, o Portal Minha Vida de Daniel Wjuniski, Acesso Digital de Diego Martins, MundiPagg de Fabio Barbosa, Kekanto de Fernando Okumura, Fashino.me de Flávio Pripas, Ingresse de Gabriel Benarros, Sambatech de Gustavo Caetano, IDXP de Gustavo Lemos, Aorta de Gustavo Ziller, ToLife de Leonardo Lima Carvalho, PagPop de Marcio Campos, B2Blue de Mayura Okura, ClearSale de Pedro Chiamulera, 21212 de Rafael Duton, LikeStore de Ricardo Grandeneti, Moovia de Rodrigo Griesi, Cliever de Rodrigo Krug, EasyTaxi de Talles Gomes.[13] Muitas destas empresas conseguiram atrair capital de risco. Não foi identificado entre os casos de empresas brasileiras que recorreram a capitais de risco a utilização do sistema de patentes como instrumento para atração de investidores. Em novembro de 2012 o Ministério da Ciência , Tecnologia e Inovação lançou o Programa Startup Brasil, com o objetivo de apoiar nascentes de base tecnológica.[14]

O CESAR Centro de Estudos de Softwares Avançados do Recife sediado no porto digital de Recife desenvolve projetos, com incentivos da Lei de Informática, nas áreas de telefonia móvel celular, eletrônica embarcada, automação bancária e comercial e parceria com a Motorola para o desenvolvimento de videogames para celulares. O CESAR possui pedido de patente PI0700729 referente a certificação digital, que foi arquivado.[15] O professor Nivio Ziviani do Departamento de Ciência da Computação da UFMG participou ativamente da fundação de três startups nascidas na UFMG na área de buscadores da Internet. Fundada em 1998 a Miner Technology Group com seu buscador conhecido como MetaMiner após 14 meses de existência foi vendida ao Grupo Abril/Folha de S. Paulo/UOL em junho de 1999.[16] Em 2000 foi criada a Akwan viabilizada devido à atuação de investidores angels que realizaram aportes financeiros na empresa na forma de capital semente (seed money) com modelo de negócios baseado em tecnologias proprietárias para prover serviços de localização de informação na Internet. Em julho de 2005 a Akwan foi comprada pelo Google. [17] A Zunnit Technologies é uma empresa de tecnologia da informação, também com origem no Departamento de Ciência da Computação da UFMG e fundada em outubro de 2009, cujo foco é a pesquisa e o desenvolvimento de sistemas de recomendação para e-commerce e provedores de conteúdo. Um acordo possibilita a transferência do conhecimento gerado no Laboratório para Tratamento da Informação (Latin) do Departamento de Ciência da Computação, coordenado pelo professor Nivio Ziviani para a Zunnit, em contrapartida a uma remuneração com usufruto de 5% das ações da empresa devida à UFMG[18]. Nestas três experiências o professor Nivio Ziviani informa que apesar de usar modelos proprietários, não fez uso do sistema de patentes por entender que os ciclos de vida de tais tecnologias são muito curtos comparados com o tempo de tramitação de uma patente.[19]

A Nearbytes startup carioca criada em 2012 desenvolveu tecnologia que permite transmitir dados codificados em ondas sonoras, ideia que permitiria a interação até mesmo entre dispositivos móveis mais antigos e acessíveis . A empresa participa em maio de 2014 de encontro promovido pela U-Start, boutique advisory para investidores europeus. A tecnologia patenteada foi criada para preencher uma grande lacuna existente na interação entre dispositivos: a comunicação por proximidade. Comunicação por proximidade implica que dois dispositivos possam facilmente identificar que estão próximos e trocar informações entre si sem necessariamente estar online.[20]



[1] USECHE, Diego. Are patents signals for the IPO market ? An EU-US comparison for the software industry, Research Policy, maio 2014
[2] MANN, Ronald; SAGER, Thomas. Patents, venture capital, and software start-ups, Research Policy 36 (2007) 193–208
[3] MAXWELL, Ian. Many start-up entrepreneurs think that patents are a waste of time; the data suggests otherwise. 07/06/2014 http://startup88.com/opinion/2014/06/07/many-start-up-entrepreneurs-think-that-patents-are-a-waste-of-time-the-data-suggests-otherwise/4697
[4] http://www.venturecapital.com.br/
[5] ANSELMO, Jefferson Leandro; GARCEZ, Marcos Paixão; SUSSMANN, Antonio Gustavo. O panorama brasileiro do capital de risco: características, evolução histórica e perspectivas. In: SANTOS, Silvio Aparecido; CUNHA, Neila Vianna. Criação de empresas de base tecnológica: conceitos, instrumentos e recursos. Maringá:Unicorpore, 2004, p.129
[6] http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Areas_de_Atuacao/Inovacao/Prosoft/index.html
[7] CHESNAIS, François; SAUVIAT, Catherine. O financiamento da inovação no regime global de acumulação dominado pelo capital financeiro. In; LASTRES, Helena; CASIOLATO, José; ARROIO, Ana. Conhecimento, sistemas de inovação e desenvolvimento, UFRJ:Rio de Janeiro, 2005, p. 204
[8] BOUÇAS, Cibelle. Empresas de TI se preparam para uma nova onda de IPOs. Valor Econômico, 29/10/2013 Valor Econômico, p.B9
[9] http://www.venturecapital.gov.br/vcn/historico_seed_01.asp
[10] BOTELHO, Antonio. The Brazilian Software Industry. In: ARORA, Ashish, GAMBARDELLA, Alfonso. From underdogs to tigers: the rise and growth of the software industry in Brazil, China, India, Ireland and Israel. Oxford University Press, 2005, p.111
[11] http://itweb.com.br/voce-informa/abvcap-e-softex-promovem-eventos-para-difundir-o-venture-capital-no-setor-de-ti/
[12] http://www.softex.br/_mercado/mercado.asp?id=4200
[13] http://exame.abril.com.br/pme/noticias/45-startups-brasileiras-de-futuro
[14] http://startups.ig.com.br/programa-start-up-brasil/
[15] http://www.cesar.org.br/site/files/uploads/2010/01/manual_howto_port_final210909.pdf
[16] ZIVIANI, Nivio. A Família Miner. https://www.ufmg.br/boletim/bol1270/pag2.html
[17] DEUTSCHER, José Arnaldo. A geração de riqueza a partir da universidade: o caso da Akwan. http://homepages.dcc.ufmg.br/~nivio/papers/inteligenciaempresarial.pdf
[18] https://www.ufmg.br/online/arquivos/021897.shtml
[19] XXXII Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, Curitiba, 2012 Painel 1:Computação e Inovação: Ampliando Fronteiras para Solução de Desafios no Brasil, 16/07/2012 http://www.imago.ufpr.br/csbc2012/CSBC-programacao.pdf
[20] http://www.tecmundo.com.br/tecnologia/50168-nearbytes-a-tecnologia-brasileira-que-esta-fazendo-barulho-literalmente-.htm
http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/nova-tecnologia-permite-envio-de-dados-por-assobio
http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=36006&sid=3#.UyuoyfldXd4
http://nearbytes.com/br/technology.php

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